O livro “É Isto um Homem?” de Primo Levi é uma obra de literatura na qual se pode aprender muito sobre a história do holocausto. O autor evita repetir tudo aquilo que já foi dito sobre o tema, não se tratando o livro de demonstrar repetitivamente ou de tornar público os horrores do holocausto (o que já foi feito), mas de mostrar o cotidiano das pessoas que viviam em um campo de trabalho feito pelos nazistas na Polônia, baseado em sua própria experiência. O autor deixa claro que existiam outros campos de concentração, e que nesses a vida era bem diferente.
A estória do livro não é linear, o autor escreve de acordo com o que julga mais importante.
Primo Levi era um italiano judeu que tentou criar um pequeno grupo de resistência anti-nazista e foi pego pela milícia nazista, isso em dezembro de 1943. Afirmou ser judeu pensando que Assim justificaria sua presença no local, e se enganou, pois foi logo mandado para um campo de concentração perto de Auschwitz. Chegou lá no meio do inverno e teve que aprender rapidamente a sobreviver naquele local inóspito. Mesmo assim, era um felizardo, pois fazia parte do grupo economicamente aproveitável, e em um momento que o Reich precisa de trabalhadores forçados.
O campo de concentração é um local em que para sobreviver, você deve ter a habilidade de resistir ao trabalho pesado, ou se esquivar de ter que trabalhar, diminuindo o ritmo propositalmente para perder menos energia, mesmo que sofra agressão física por isso. Também faz parte saber como conseguir ter mais alimentos, que são extremamente difíceis de conseguir no acampamento. O pão é a moeda de troca, devido à dificuldade de conseguir acumular algum pão. Em geral, eles são dados e no mesmo momento consumidos, pois tamanha é a fome, mas para conseguir acumular “capital” para um comércio, tem que se deixar de comer pão para estocar, ou já conseguir de outra forma algum objeto que possa ser trocado, como uma faca, uma colher, uma camisa ou uma bota. Pode-se conseguir mais pães como pagamento por serviços, ou com o roubo. Também conseguir um bom cargo facilita a sobrevivência, foi o caso de Levi, que conseguiu um cargo em um laboratório de química que melhorou muito a sua condição, e o privou de ter que resistir a mais um inverno. Os que conseguem o cargo de capataz, ou Kapo, em geral são mais brutos porquê têm medo de perder o cargo, além disso, a raiva que tem de seus superiores é descontada nos seus comandados. Nota-se que quem oprime, muitas vezes, também é oprimido, e assim funcionava o sistema do campo de concentração Nazista.
Existem três tipos de prisioneiros, os criminosos, os políticos e os Häftling, sendo este último o grupo do qual Levi fazia parte. Os presos políticos não eram os opositores do regime, pois estes tinham outro destino, e tinham uma vida bem mais dura. Os Häftling eram os prisioneiros mais numerosos e mais odiados do campo, os que mais sofriam. Nessa classe estavam todos os judeus.
O campo é feito por uma série de regras e restrições, que na maioria das vezes não tem objetivo algum senão impedir os prisioneiros de fazer o que querem e o que necessitam, simplesmente porque o campo é feito para isso. É um campo de trabalho forçado, mas também nele são eliminados os trabalhadores menos adaptados. Os que não são eliminados dessa forma, depois também têm que passar por um processo de seleção em que são escolhidos aqueles que devem ser mortos no Birkenau, com o fim de aliviar a superpopulação do campo.
O principal argumento do autor é de que as restrições do campo são feitas para tentar desumanizar o prisioneiro. Tudo no campo é feito para tal propósito. Em primeiro lugar perdiam seus pertences, tinham o cabelo e barbas raspados, e perdiam até seus nomes, e lhes eram dados números de matrícula pelo qual seriam identificados no campo. Um número alto significava um Häftling com menos tempo no campo, ou seja, menos experiente. A perda da humanidade do prisioneiro não passava só por isso, mas também pela aceitação de sua condição. Chega um momento em que o prisioneiro não se importa se vai sobreviver ou se vai morrer, se está sentindo dor, se vai apanhar, se sente ou se vai sentir frio ou fome, e é nesse momento que o autor diz que ele deixou de ser humano. Porém, são os que não se deixam vencer que conseguem, no final, sobreviver.
Também a questão moral é questionada quando se está em um campo de concentração, pois sob essas condições, o único objetivo se torna a sobrevivência. Algumas pessoas são levadas a trair os amigos, a maltratar os companheiros (como é o caso do Kapo, já mencionado) e roubar. Este último faz parte da vida no campo, e quem não rouba algo não sobrevive. Quem cumpre ordens e vive de forma “honesta” dentro do campo em geral morre de esgotamento. O que o autor tenta dizer é que não cabe julgar aqueles que estão no campo e lá comentem ações que seriam reprováveis fora dele, porque lá é um mundo totalmente diferente, em que o objetivo final é estar vivo até o dia seguinte, e conseguir satisfazer, de todas as necessidades, a mais imediata, seja a fome, a sede ou o frio.
Primo Levi, ao escrever esse livro baseado em sua própria experiência em um campo de concentração Nazista, produz um documento com enorme valor histórico, pois é feito a partir do ponto de vista de alguém que vivenciou a situação, sendo Levi uma testemunha da verdade sobre os horrores do nazismo.