domingo, 22 de junho de 2008

Resenha do livro de Primo Levi, "É Isto um Homem?

O livro “É Isto um Homem?” de Primo Levi é uma obra de literatura na qual se pode aprender muito sobre a história do holocausto. O autor evita repetir tudo aquilo que já foi dito sobre o tema, não se tratando o livro de demonstrar repetitivamente ou de tornar público os horrores do holocausto (o que já foi feito), mas de mostrar o cotidiano das pessoas que viviam em um campo de trabalho feito pelos nazistas na Polônia, baseado em sua própria experiência. O autor deixa claro que existiam outros campos de concentração, e que nesses a vida era bem diferente.

A estória do livro não é linear, o autor escreve de acordo com o que julga mais importante.

Primo Levi era um italiano judeu que tentou criar um pequeno grupo de resistência anti-nazista e foi pego pela milícia nazista, isso em dezembro de 1943. Afirmou ser judeu pensando que Assim justificaria sua presença no local, e se enganou, pois foi logo mandado para um campo de concentração perto de Auschwitz. Chegou lá no meio do inverno e teve que aprender rapidamente a sobreviver naquele local inóspito. Mesmo assim, era um felizardo, pois fazia parte do grupo economicamente aproveitável, e em um momento que o Reich precisa de trabalhadores forçados.

O campo de concentração é um local em que para sobreviver, você deve ter a habilidade de resistir ao trabalho pesado, ou se esquivar de ter que trabalhar, diminuindo o ritmo propositalmente para perder menos energia, mesmo que sofra agressão física por isso. Também faz parte saber como conseguir ter mais alimentos, que são extremamente difíceis de conseguir no acampamento. O pão é a moeda de troca, devido à dificuldade de conseguir acumular algum pão. Em geral, eles são dados e no mesmo momento consumidos, pois tamanha é a fome, mas para conseguir acumular “capital” para um comércio, tem que se deixar de comer pão para estocar, ou já conseguir de outra forma algum objeto que possa ser trocado, como uma faca, uma colher, uma camisa ou uma bota. Pode-se conseguir mais pães como pagamento por serviços, ou com o roubo. Também conseguir um bom cargo facilita a sobrevivência, foi o caso de Levi, que conseguiu um cargo em um laboratório de química que melhorou muito a sua condição, e o privou de ter que resistir a mais um inverno. Os que conseguem o cargo de capataz, ou Kapo, em geral são mais brutos porquê têm medo de perder o cargo, além disso, a raiva que tem de seus superiores é descontada nos seus comandados. Nota-se que quem oprime, muitas vezes, também é oprimido, e assim funcionava o sistema do campo de concentração Nazista.

Existem três tipos de prisioneiros, os criminosos, os políticos e os Häftling, sendo este último o grupo do qual Levi fazia parte. Os presos políticos não eram os opositores do regime, pois estes tinham outro destino, e tinham uma vida bem mais dura. Os Häftling eram os prisioneiros mais numerosos e mais odiados do campo, os que mais sofriam. Nessa classe estavam todos os judeus.

O campo é feito por uma série de regras e restrições, que na maioria das vezes não tem objetivo algum senão impedir os prisioneiros de fazer o que querem e o que necessitam, simplesmente porque o campo é feito para isso. É um campo de trabalho forçado, mas também nele são eliminados os trabalhadores menos adaptados. Os que não são eliminados dessa forma, depois também têm que passar por um processo de seleção em que são escolhidos aqueles que devem ser mortos no Birkenau, com o fim de aliviar a superpopulação do campo.

O principal argumento do autor é de que as restrições do campo são feitas para tentar desumanizar o prisioneiro. Tudo no campo é feito para tal propósito. Em primeiro lugar perdiam seus pertences, tinham o cabelo e barbas raspados, e perdiam até seus nomes, e lhes eram dados números de matrícula pelo qual seriam identificados no campo. Um número alto significava um Häftling com menos tempo no campo, ou seja, menos experiente. A perda da humanidade do prisioneiro não passava só por isso, mas também pela aceitação de sua condição. Chega um momento em que o prisioneiro não se importa se vai sobreviver ou se vai morrer, se está sentindo dor, se vai apanhar, se sente ou se vai sentir frio ou fome, e é nesse momento que o autor diz que ele deixou de ser humano. Porém, são os que não se deixam vencer que conseguem, no final, sobreviver.

Também a questão moral é questionada quando se está em um campo de concentração, pois sob essas condições, o único objetivo se torna a sobrevivência. Algumas pessoas são levadas a trair os amigos, a maltratar os companheiros (como é o caso do Kapo, já mencionado) e roubar. Este último faz parte da vida no campo, e quem não rouba algo não sobrevive. Quem cumpre ordens e vive de forma “honesta” dentro do campo em geral morre de esgotamento. O que o autor tenta dizer é que não cabe julgar aqueles que estão no campo e lá comentem ações que seriam reprováveis fora dele, porque lá é um mundo totalmente diferente, em que o objetivo final é estar vivo até o dia seguinte, e conseguir satisfazer, de todas as necessidades, a mais imediata, seja a fome, a sede ou o frio.

Primo Levi, ao escrever esse livro baseado em sua própria experiência em um campo de concentração Nazista, produz um documento com enorme valor histórico, pois é feito a partir do ponto de vista de alguém que vivenciou a situação, sendo Levi uma testemunha da verdade sobre os horrores do nazismo.

Resenha do filme: O Triunfo da Vontade

O documentário de Leni Riefenstahl sobre o congresso nacional-socialista alemão de 1934, lançado no mesmo ano, é acima de tudo uma exaltação da nacionalidade alemã, do Estado nacional-socialista, e do próprio Hitler. O filme representava um grande avanço em técnicas de filmagem, influenciando diversos diretores.

O filme exibe a força de Hitler diante de sua multidão, mostrando o seu enorme poder de comando sobre ela, caracterizando um dos elementos do Nacional-Socialismo, a ordem. Um espetáculo estético é feito diante de Hitler, em que se pode notar que as multidões eram altamente organizadas e o apoiavam.

Hitler aparece como sendo o líder capaz de fazer a Alemanha voltar a ser uma grande nação, apesar da humilhação que o país sofreu após a Primeira Grande Guerra. São mostrados discursos de personalidades do Exército alemão que incentivam o povo a se mobilizar para melhorar a condição de seu país e aumentam a sua moral, fazendo elogios, de forma a acender o patriotismo no coração das pessoas, como por exemplo, dizendo que são de sangue puro e que são fortes. Mostra-se o caráter nacionalista, ao demonstrar que lá estavam presentes homens de toda a Alemanha, dando a idéia de que todos formavam uma só nação.

O discurso de Hitler dava grande importância ao trabalhador alemão e aos jovens (tanto que era a eles que o discurso mais se dirigia). Hitler prometia fazer do trabalhador alemão um cidadão, com os mesmos direitos que possuíam aqueles de classe social mais privilegiada – está aí presente mais uma característica do Nacional-Socialismo, a idéia de que não existem classes, e sim uma nação. A nação é um corpo só, e cada grupo social seria um órgão deste corpo, e sendo assim, não deveriam haver brigas entre esses grupos, já que buscavam o mesmo objetivo, que era construir uma Alemanha forte e vencedora, e o Führer estava lá para conciliar estes grupos, sendo um juiz das causas de ambos. Para que isso se concretizasse, era necessário que os alemães mais humildes acreditassem que teriam uma vida mais amena, e que a riqueza e glória da nação seria compartilhada por eles. Quanto aos jovens, Hitler dá uma atenção especial, dizendo pertencer a eles o destino da Alemanha. De fato, era mesmo dos jovens que o Nacional-Socialismo dependia, pois eram eles iriam compor o exército, e eles que mais se mobilizavam.

Mais uma conclusão que se pode tirar ao assistir o filme é que Hitler dava grande importância aos símbolos. Tropas da S.A. e da S.S. desfilam carregando o estandarte nazista, que possuía certa semelhança com os estandartes usados pelo Império Romano, causando uma certa impressão de grandiosidade do Reich. Também tropas se organizavam de tal maneira que se formava uma suástica, símbolo nacional-socialista.

Ideologicamente, notava-se o ideal de supremacia da raça ariana, baseada no darwinismo social e na eugenia. Também estavam presentes a noção de equipe e de camaradagem (como pode se perceber no início do filme, onde os jovens apareciam realizando atividades em equipe), e eram muito valorizados os veteranos da Primeira Grande Guerra.

Quanto à característica racial do Nazismo, já se pode notar assistindo o filme que haveria discriminação, que nem todos os alemães seriam representados pelo Estado Nacional-Socialista. Numa parte do filme em que aparecem discursos de diversos homens que faziam parte do comando do Estado, um chamou atenção em seu discurso. Seu nome é Julius Streicher, Governador da Franconia superior e editor do “Der Stürmer”, e dizia “A nação que não valorizar sua pureza racial, irá perecer”. Esta frase deve ser associada com o que começou a acontecer com os Alemães considerados “impuros” e “degenerados”, como os judeus, deficientes físicos, ciganos, e diversos outros grupos, e o que aconteceria com eles depois. Deve-se imediatamente lembrar dos campos de extermínio, sendo este o momento em que o Estado Alemão tentou a qualquer custo “valorizar a sua pureza racial”.

Resenha do filme: Arquitetura da Destruição

O filme “Arquitetura da Destruição” mostra como a arte estava presente no pensamento nacional-socialista, e como foi utilizada maciçamente na propaganda política. Mostra diversos elementos artísticos que compuseram o cenário político do Terceiro Reich, inclusive que diversos membros da administração do Estado alemão eram artistas, inclusive o próprio Hitler. O filme, porém, também serve para mostrar que não se pode dizer que Hitler era apenas um artista medíocre e frustrado, pois todo o Estado nacional-socialista se apoiou sobre seu projeto artístico.

A arte está profundamente ligada ao ideal anti-liberal do nazismo. Nas pinturas nazistas, era representado um modo de vida bucólico, e admirava-se o cavaleiro medieval; além disso, Hitler era apaixonado pelas óperas de Richard Wagner, que contavam sagas de cavaleiros medievais e heróis da mitologia germânica. Isso se insere num contexto reacionário de aversão ao novo e da busca pela volta ao modo de vida dos antepassados, e o nazismo, como diz Eric Hobsbawm, não era simpático à Revolução Francesa ou o que quer viesse dela, como o comunismo, irmão de berço do liberalismo.

A arte moderna era vista como uma arte degenerada, ligada ao comunismo e ao judaísmo. Figuras de pessoas com problemas genéticos eram comparadas com pinturas modernistas, e grandes artistas alemães foram banidos, pois não se enquadravam no modelo de beleza que o nazismo queria apresentar, visto que beleza era sinônimo de saúde, e almejava-se criar uma sociedade alemã bela e saudável. O Nacional-Socialismo saberia exatamente o que havia de doente na sociedade alemã, e se responsabilizava por limpá-la, para criar um povo alemão belo, forte, e saudável. A isso se uniu uma biologia eugênica que, baseada no darwinismo, classificava como inferiores e degenerados todos os problemas genéticos. Dessa forma, eliminar um deficiente físico ou mental seria o mesmo que eliminar uma doença da sociedade. Dizia-se que o homem, ao se organizar em sociedades, passou a desrespeitar a seleção natural e a própria natureza permitindo que um deficiente continuasse a viver, sendo que o mesmo não conseguiria se fosse por conta própria.

Nesse contexto de eliminar as doenças da sociedade se encaixa também o próprio anti-semitismo, sendo os judeus considerados uma raça degenerada, e mais que isso, uma grande doença na sociedade alemã. A eliminação dos judeus se encaixa no processo de purificação da raça, e também da cultura do povo alemão, e a chamada “solução final”, seria uma agilização nesse processo, visto que estava cada vez mais evidente que a Alemanha poderia perder a guerra.

Resenha do filme: Homo Sapiens 1900

Eugenia é a ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da raça humana. Apesar de tal conceito parecer inofensivo, a eugenia foi responsável por diversas ideologias que oprimiam uma minoria étnica e para justificar atrocidades, como a limpeza racial. Isto é discutido no documentário de Peter Cohen, Homo Sapiens 1900.

O filme demonstra que a eugenia não foi uma característica exclusiva do Estado Nacional-Socialista alemão, e que serviu para diversos fins, inclusive em governos democráticos, como na Inglaterra e nos Estados Unidos. Existiram dois tipos de política de eugenia, a política de eugenia positiva e a negativa. A positiva consistia em fazer com que as raças superiores se proliferassem, e a negativa em evitar que as inferiores proliferassem.

Os principais alvos da crítica de Cohen, porém, são a Alemanha e a URSS.

A Alemanha construiu um estado totalmente baseado num ideal de pureza racial, e foram utilizadas as teorias Eugênicas para construir um povo alemão “puro”, e era muito valorizada a beleza e a saúde. A pureza racial do povo Ariano era associado não só à beleza e à saúde, mas também à higiene, e dessa forma houve o assassinato de pessoas com defeitos genéticos, além da proibição de casamentos inter-raciais e a perseguição a minorias consideradas naturalmente inferiores.

São mostradas as casas que os nazistas criaram para abrigar mulheres que dariam à luz o futuro super-homem. Essas, por sua vez, acabaram gerando problemas ideológicos para o próprio nazismo, na medida em que o cruzamento sexual entre machos e fêmeas para a reprodução desse homem perfeito entrava em contradição com o conceito de família que estava na base do regime.

Na URSS, pelo contrário, a prioridade dos estudos baseadas em teorias eugênicas era o intelecto humano, e o próprio cérebro de Lênin foi estudado após sua morte. Na URSS, ainda predominava o lamarckismo, pois era mais conveniente para o socialismo tal teoria que dizia que os homens eram produto do meio; enquanto isso as teorias de Mendel eram consideradas contra-revolucionárias. Embora por caminhos opostos, ambos os Estados rivais (Estado Socialista e Estado Nacional-Socialista) recorreram à eugenia como forma de criar o novo homem que propunham.

A parte mais impressionante do filme de Peter Cohen é quando mostra um filme mudo “educativo” produzido nos Estados Unidos chamado A Cegonha Negra, em que um médico pratica eutanásia em um bebê que nasceu deformado, e diz na legenda: “Há ocasiões em que salvar uma vida é um crime maior do que tirá-la”. O filme é uma propaganda de uma política de limpeza racial baseada na eugenia, e é uma prova de que não foi apenas o Nazismo, ou os Estados autoritários que pretenderam colocar em prática essas teorias raciais, pois mesmo nos Estados Unidos, essa teoria também foi base para uma política de “Apartheid”.